O ano de 2025 está em seus estertores. Alguns poetas dizem que estamos no réquiem. Outros preferem chamar de fim de ciclo. Use-se o nome que quiser. Aqui, vamos falar de Economia — essa ciência que, neste ano, mudou de roupa e resolveu conversar com gente de verdade. Ela ficou mais palatável, menos enigmática. A maioria das pessoas chega ao fim do ano sabendo que Selic alta inibe investimento e aperta o emprego. Nesse ponto, você deve ter travado. O cérebro piscou e avisou: “mas o desemprego está baixo, 5,4% em outubro”. E você deve estar se perguntando: que conversa torta é essa?
Calma. Essa metodologia mascara o subemprego e a tal da informalidade — nomes chiques para a precarização do trabalho e para o velho ato de ser camelô. “Sou do mercado informal, com minha guia sou profissional”, como canta Edson Gomes. Os números contam, mas contam mal. Não dizem nada sobre qualidade, estabilidade e futuro. Hoje, sábado à tarde, recebi uma encomenda entregue por uma jovem que, certamente, preferia estar na praia, lagarteando. Mas estava na labuta. A cada dez trabalhadores ocupados, quase quatro estão na informalidade. Não há sistema previdenciário que aguente isso sem instrumentos de proteção, que simplesmente não existem.
E ainda tem mais gente espremida nessa conta. Os subutilizados: desocupados, subocupados por falta de horas e a tal força de trabalho potencial. No terceiro trimestre de 2025, essa taxa bateu 13,9%. Dá para você? Vai dizer a esse povo que está tudo bem? Não está. E piora. Existem os desalentados: cerca de 2,6 milhões de pessoas que desistiram de procurar emprego. Não foi preguiça. Foi falta de esperança. Com esse cenário, se não houver política pública séria, fecharemos 2026 olhando para o abismo. E, como avisou aquele alemão mal-humorado, o abismo olha de volta. Nietzsche, seu danado.
Nós, economistas, gostamos de pular sete ondas. Mas também gostamos de futurologia, sobretudo aquela de quinta categoria. Sim, estou falando do Boletim Focus, onde, toda segunda-feira, lobos capinam o caminho para que os cordeiros caiam direitinho na armadilha. PIB, inflação e Selic desfilam previsões apocalípticas e, no fim, tudo termina num “ufa” coletivo. Minha aposta é menos dramática: o PIB cresce com gasto público em ano eleitoral; a inflação segue domada, porque a China assim deseja; a Selic inicia sua descida; e o câmbio vira dor de cabeça, porque Trump gosta de bagunça.
A China seguirá vendendo insumos baratos. O capital brasileiro seguirá lucrando. Os preços até caem — mas poderiam cair mais, se a ganância não comesse pelas beiradas.
Outro susto vem do endividamento das famílias. Aqui é preciso separar as categorias: “devo, não nego”; “pago em dia”; “pago quando der”; e “coisa nova, pago o que puder”. Hoje, 13% das famílias têm contas que simplesmente não conseguem pagar. Isso não é detalhe: é bomba-relógio. Uma queda da Selic pode ajudar na renegociação. Dá um respiro. O aumento do salário mínimo ajuda também. E, em fevereiro, uma boa notícia pinga no contracheque de 14 milhões de pessoas: a isenção do imposto de renda. Um alívio pequeno, mas real.
Ainda falta atacar o custo do transporte. A Tarifa Zero segue como esperança — dessas que resistem ao cinismo. Um fundo nacional de mobilidade urbana poderia, enfim, bancar os custos operacionais nas grandes cidades. Seria mais grana no bolso do povo e nos cofres do comércio.
E, já que estamos falando de espinhos: é preciso enterrar a escala 6×1. Sem choro. Custo de mão de obra no comércio e na indústria não chega a 20% dos custos totais. Quer enganar quem? Quem luta com monstros precisa ter cuidado para não virar um deles. Pronto. Lá fui eu de novo citar o alemão. Em 2026, especialistas reaparecerão dizendo que o governo gasta demais. Pedirão cortes. Fingirão esquecer que a maior despesa pública são juros e amortizações da dívida. Esquecerão o resultado primário e gritarão que o Estado tributa demais. Isso tem nome: hipocrisia. Como dizia Rochefoucauld, é a homenagem que o vício presta à virtude. Talvez alguém resgate o debate sobre quanto dinheiro sobra para o agro lucrar — tanto que dá até para financiar maluquices golpistas na porta de quartel. O 8 de janeiro segue sem financiador condenado. Política é curiosa: serve a poucos, pesa para muitos. Os pobres, que bancam cerca de 68% da arrecadação, ficam com migalhas e piadas. A reforma tributária justa, universal e progressiva segue no mundo das ideias.
Na segurança pública, a campanha será barulhenta. Muito tiro, pouca inteligência. A cada 100 homicídios, só 35 são esclarecidos. Mortes de pretos seguem invisíveis. Quando se esclarecem, absolvem-se culpados. O caso do músico alvejado virou símbolo. Investimento em inteligência e tecnologia será varrido para baixo do tapete. A corrupção segue protegida por fardas e distintivos. Vazaram senhas numa operação no Rio, um delegado perdeu a perna, e o país fez cara de paisagem. Nas periferias, só trocam os soldados; os chefes seguem encastelados no sistema financeiro, lavando, passando e sorrindo.
Na saúde, a atenção primária continuará espremida. O SUS carrega o país nas costas. Setenta por cento da população não tem plano privado. E quem tem, geralmente depende do emprego: perdeu o trabalho, perdeu o plano. Mesmo assim, menos de um terço da população responde por cerca de 65% dos gastos totais com saúde. É o retrato perfeito da desigualdade: poucos custam muito, muitos custam pouco — e pagam caro.
2026 vem aí. Vai ser barril. Mas, como sempre, a gente segue — devagar, bem devagarinho.
Rosevaldo Ferreira é economista, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), foi Diretor de Tributos da Prefeitura de Feira de Santana, Coordenador de Projetos do Sudic, Auditor Fiscal, Coordenador Regional da Agerba e Coordenador do Curso de Economia da UEFS.


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