A saúde pública em Feira de Santana enfrenta um paradoxo. Por um lado, o município recebe assistência substancial dos governos federal e estadual, na forma de novos projetos, equipamentos modernos e programas em expansão. Por outro lado, problemas antigos persistem, impactando a vida diária da população de várias maneiras: filas, falta de acesso a especialistas, unidades de atendimento de emergência sobrecarregadas e a incapacidade de coordenação entre as autoridades envolvidas dos entes federativos O cenário em 2025 é de transição de um ponto a outro, com avanços pontuais e dificuldades estruturais ainda longe de um ponto final absoluto, em que a população que depende do serviço público padece e muitas vezes morrendo aos poucos onde deveria se curar.
O funcionamento do sistema de saúde local ilustra a lógica do Sistema Único de Saúde (SUS), onde a responsabilidade centralizada pelos serviços de saúde é compartilhada entre seus parceiros no sistema (a União, o Estado e o Município). Existem funções diferentes, mas integradas, de cada esfera, o que torna a coordenação uma questão importante para fornecer serviços eficazes à população. A União atua principalmente como órgão de financiamento e formulação de políticas. Feira de Santana recebeu consideráveis recursos do Novo PAC da Saúde nos últimos 2 anos, para desenvolver novas Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e renovação da frota de SAMUs. Esses são os tipos de investimentos visíveis que expandem a capacidade da rede física. Da mesma forma, alguns programas federais, incluindo a Estratégia Saúde da Família e o Brasil Sorridente, também foram beneficiados, com apoio da União. As transferências federais diretas para a saúde do município ultrapassaram centenas de milhões de reais em 2024, que são as operações básicas da rede municipal. A questão aparece com dores da população quando se trata da Média e Alta Complexidade, o chamado teto MAC, que paga por cirurgias e exames custosos e internações, é considerado pela gestão municipal como desatualizado. Como Feira atende não apenas seus próprios residentes, mas também clientes de dezenas de outras cidades da região, os números não batem. Na prática, a demanda aumenta mais do que as transferências federais. Como um polo regional, Feira de Santana centraliza algumas das principais instalações de saúde na Bahia. O Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) e o Hospital Estadual da Criança (HEC) são referências em alta complexidade; eles recebem pacientes de toda a macrorregião. Essas unidades foram modernizadas pelo Governo do Estado junto com novos setores de bioimagem, serviços especializados ampliados e a integração de tecnologias avançadas (cirurgias robóticas). A Policlínica Regional também contribui com consultas e exames especializados, aliviando os hospitais. O mais correto seria o município de Feira de Santana, construir um centro MAC, ou seja, um hospital municipal, que decerto desafogaria o Hospital Cleriston Andrade, melhorando a vida de quem mora em outras cidades. A população feirense não ficaria tão dependente da rede estadual, mas vai lá saber o porquê de isso nunca acontecer.
A maior reclamação da população é a fila de regulação. Pacientes das unidades municipais de atendimento de emergência frequentemente precisam esperar dias por uma vaga nos hospitais estaduais. A questão não é apenas a ausência de leitos, mas também o desafio de coordenação compartilhada entre os sistemas municipal e estadual, tornando a regulação um dos maiores gargalos na saúde pública local. É no nível municipal que a população sofre o impacto das falhas do sistema. A Prefeitura é responsável pela atenção primária e pelos serviços de emergência, servindo como porta de entrada do SUS. Em 2025, a gestão municipal revelou planos para renovar UBSs e policlínicas, bem como medidas emergenciais na forma da “Força-Tarefa Fila Zero” para reduzir o tempo de espera por consultas e exames. Essas são boas estratégias, mas não estão abordando o problema em sua essência. Não se tem notícias se a fila foi zerada ou continua afligindo seus moradores. Feira de Santana frequentemente apresenta cobertura de Saúde da Família de 70% a 75%, menos do que o ideal para um município de seu tamanho. Ou seja, os residentes muitas vezes recorrem às unidades de atendimento de emergência para questões triviais, saturando os serviços de emergência. Isto provoca sofrimento, e este debate é escamoteado, não se colocado a verdade para quem precisa. Sem cobertura na atenção primária, mais pessoas ficam doentes, com o sistema colapsado, mais pessoas ficarão reféns de doenças graves e o óbito aumenta. Antes do óbito, a força de trabalho ´atingida, pois os trabalhadores demoram a retornar ao mercado pressionando a Previdência Social. Os empresários não se preocupam, pois o exército industrial de reserva, que coexiste no comercio e nos serviços, existem para que a Economia feirense não pare, sempre tem gente apresentando currículo e oferecendo serviços.
Além disso, há escassez de médicos especialistas, a precariedade das unidades em comunidades periféricas e áreas remotas e a contínua disputa em torno do contrato de Organizações Sociais, não à toa, volta e meia, aparece um escândalo no setor de saúde, custem a acreditar, mas arrisco dizer: a terceirização dos serviços de saúde fracassou geral. Muitas vezes isso leva a longos atrasos nos pagamentos e falta de suprimentos.
O panorama da saúde em Feira de Santana demonstra que o problema não é apenas dinheiro. Há uma série de investimentos, projetos e programas já em andamento! Coordenação entre os três níveis de governo, melhor atenção primária e regulamentação mais rigorosa no acesso a serviços mais complexos são as principais questões. Sem enfrentar esses problemas estruturais: a cidade continuará coexistindo com um sistema que avança em poucas áreas, falhando exatamente onde todos realmente precisam de acesso rápido, eficiente e equitativo à saúde pública.
Rosevaldo Ferreira é economista, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), foi Diretor de Tributos da Prefeitura de Feira de Santana, Coordenador de Projetos do Sudic, Auditor Fiscal, Coordenador Regional da Agerba e Coordenador do Curso de Economia da UEFS.


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