O IPCA-15 despencou em julho. Quem apontava o caos inflacionário para o mês teve de receber, em cheio, um índice de apenas 0,06%. Depois da pancada de 0,41% em junho, a desaceleração foi um verdadeiro aleluia. Não se trata apenas de uma diferença de 0,35 ponto percentual entre um mês e outro, mas de uma mudança significativa na velocidade de crescimento dos preços. Em economia, essa distinção é fundamental: uma coisa é a inflação permanecer positiva; outra, completamente diferente, é a taxa de inflação estar desacelerando. Foi exatamente isso que aconteceu em julho. O resultado também merece ser confrontado com as previsões mais pessimistas que circulavam antes da divulgação do índice. Quando as expectativas apontam para uma inflação muito superior àquela efetivamente observada, ocorre uma espécie de erro de previsão, que não é apenas uma curiosidade estatística. Expectativas de inflação influenciam decisões de consumo, formação de preços, negociações salariais, contratos e, principalmente, a própria condução da política monetária. Por isso, um IPCA-15 de 0,06%, muito abaixo do que alguns analistas projetavam, representa uma informação econômica relevante: ele sugere que as pressões inflacionárias de curto prazo podem estar menos intensas do que se imaginava. É claro que um único indicador não permite decretar a vitória sobre a inflação. O Banco Central precisa observar a persistência do movimento, os chamados núcleos de inflação, os preços dos serviços, o comportamento da demanda e as expectativas para os próximos meses. Mas também não se pode ignorar uma informação favorável quando ela aparece. Se a inflação corrente está desacelerando e os principais componentes começam a contribuir para esse movimento, insistir em um cenário de catástrofe inflacionária passa a exigir muito mais evidências. Depois de tantos alertas sobre uma possível aceleração dos preços em julho, o índice veio e fez o que os bons indicadores econômicos fazem: contrariou as previsões mais alarmistas e colocou os fatos no lugar das conjecturas. No fim das contas, a inflação não lê as manchetes dos jornais nem segue o pessimismo dos analistas; ela simplesmente aparece nos preços. E, em julho, apareceu bem menor do que muitos esperavam. Mais do que um número, o IPCA-15 é um dos principais termômetros da inflação brasileira. Divulgado antes do índice oficial do mês, ele antecipa a tendência dos preços e serve como importante referência para consumidores, empresários e, sobretudo, para o Comitê de Política Monetária (Copom). O acumulado da inflação chegou a 3,51% no ano e 4,52% nos últimos doze meses. Embora ainda permaneça acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central, a trajetória recente indica perda de intensidade das pressões inflacionárias. Vale lembrar que inflação não é apenas aumento de preços. O que realmente preocupa é a persistência desse aumento. Quando os índices passam a desacelerar de forma consistente, cresce o espaço para uma política monetária menos restritiva. Nunca é demais lembrar que julho não costuma ser um mês genuinamente patriota. Neste ano, porém, ficou perfilado, cantando o Hino Nacional. Sobrou um resíduo da alta da energia elétrica na conta de luz, mas a boa notícia veio do grupo de alimentação e bebidas, com queda de 0,66%, e do vestuário, que recuou 0,33%. São dois grupos que pesam diretamente no orçamento das famílias, especialmente das de menor renda. É justamente esse comportamento dos preços que o Copom acompanha. A missão do Banco Central é assegurar a estabilidade da moeda por meio do controle da inflação. Seu principal instrumento é a taxa Selic: quando os juros sobem, o crédito fica mais caro, o consumo e os investimentos tendem a desacelerar e a inflação perde força; quando caem, ocorre o movimento inverso, estimulando a atividade econômica. Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: e agora, Copom? A economia parece oferecer argumentos para o início de um ciclo de redução dos juros. A inflação corrente mostra sinais de arrefecimento, especialmente nos alimentos, enquanto os juros reais continuam entre os mais elevados do mundo. Manter uma política monetária excessivamente restritiva por muito tempo significa impor custos elevados ao investimento produtivo, ao consumo das famílias e à geração de empregos. É verdade que o Banco Central também observa as expectativas futuras de inflação, o comportamento das contas públicas, a taxa de câmbio e o cenário internacional. Entretanto, política monetária também exige sensibilidade para reconhecer mudanças no ambiente econômico e evitar que o remédio continue sendo aplicado quando a febre já começou a baixar. Espero que o Copom, na próxima semana, reduza a Selic para abaixo de 14%. Seria um sinal importante de confiança na trajetória de desinflação da economia brasileira. Sonhar, contudo, não custa nada. Melhor ainda seria ver a taxa convergir para algo próximo de 11,5%, nível muito mais compatível com um país que precisa voltar a crescer, investir e gerar empregos. Quem viver, verá.
Rosevaldo Ferreira é economista, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), foi Diretor de Tributos da Prefeitura de Feira de Santana, Coordenador de Projetos do Sudic, Auditor Fiscal, Coordenador Regional da Agerba e Coordenador do Curso de Economia da UEFS.


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